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    01
    Q447055
    Ano: 2014
    Banca: IDECAN
    Órgão: DETRAN-RO
    Texto  
                                            Retrato falado

        Uma das coisas que não entendo é retrato falado. Em filme policial americano, no retrato falado sai sempre a cara do criminoso, até o último cravo. Mas na vida real, que nada tem de filme americano, o retrato falado nunca tem o menor parentesco com a cara do cara que acaba sendo preso.

    - Atenção. Aqui está um retrato falado do homem que estamos procurando. Foi feito de acordo com a descrição de dezessete testemunhas do crime. Decorem bem a sua fisionomia. Está decorada?
    - Sim, senhor.
    - Então, procurem exatamente o contrário deste retrato. Não podem errar.
     Imagino os problemas que não deve ter o artista encarregado dos retratos falados na polícia. Um homem sensível obrigado a conviver com a imprecisão de testemunhas e as rudezas da lei.
    - O senhor mandou me chamar, delegado? 
    - Mandei, Lúcio. É sobre o seu trabalho. Os seus últimos retratos falados...
    - Eu sei, eu sei. É que estou numa fase de transição, entende? Deixei o hiper-realismo e estou experimentando com uma volta as formas orgânicas e...
    - Eu compreendo, Lúcio. Mas da última vez que usamos um retrato falado seu, a turma prendeu um orelhão. 
    O pior deve ser as testemunhas que não sabem descrever o que viram.
    - O nariz era assim, um pouco, mais ou menos como seu, inspetor.
    - E as sobrancelhas? As sobrancelhas são importantes.
    - Sobrancelhas? Não sei... como as suas, inspetor.
    - E os olhos? 
    - Os olhos claros, como os...
    - Já sei. Os meus. O queixo?
    - Parecido com o seu.
    - Inspetor, onde é que o senhor estava na noite do crime?
    - Cala a boca e desenha, Lúcio. 
    E há os indecisos.
    - Era chinês.
    - Ou era chinês ou tinha dormido mal.
    E deve haver a testemunha literária!
    - Nariz adunco, como de uma ave de rapina. A testa escondida pelos cabelos em desalinho. Pelos seus olhos, vez que outra, passava uma sombra como uma má lembrança. A boca de uma sensualidade agressiva mas ao mesmo tempo tímida, algo reticente nos cantos, com uma certa arrogância no lábio superior que o lábio inferior refutava e o queixo desmentia. Narinas vívidas, como as de um velho cavalo. Mais não posso dizer porque só o vi por dois segundos.
    Os sucintos:
    - Era o Charles Bronson com o nariz da Maria Alcina.
    - Tipo Austregésilo de Athayde, mas com bigodes mexicanos.
    - Uma miniatura de cachorro boxer, comandante da Varig e beque do Madureira.
    - Bota aí: a testa do Jaguar, o nariz do Mitterrand, a boca do porteiro do antigo Fred's e o queixo da Virgínia Woolf. Uma orelha da Jaqueline Kennedy e a outra, estranhamente, do neto do Getty.
    - A Emilinha Borba de barba depois de um mal voo na ponte aérea com o Nélson Ned. E há as surpresas.
    - Bom, era um cara comum. Sei lá. Nariz reto, boca do tamanho médio, sem bigode. Ah, e um olho só, bem no meio da testa.
    O ciclope ataca outra vez! 
    Experimente você dar as características para o retrato falado de alguém.
    - Os olhos de Sandra Brea. Um pouco menos sobrancelha. O nariz de Claire Bloom de 15 anos atrás. A boca de Cláudia Cardinale. O queixo da Elizabeth Savala. Um seio de Laura Antonelli e outro da Sydne Rome. As pernas da Jane Fonda.
    - Feito. Mas quem é essa?
    - Não sei, mas se encontrarem, tragam-na para mim depressa. E vival

    (Luis Fernando Veríssimo. Retrato falado. In: PINTO, Manuel da Costa. Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Salamandra, 2008.)

    No trecho "Pelos seus olhos, vez que outra, passava uma sombra como uma må lembrança." (25°§)), a palavra destacada introduz uma

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